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Kami

O Kami

O espírito está presente em tudo o que existe. A palavra shinto é composta por shin que significa deus, espírito e por to que significa senda. Diz-se que surgiu como antítese ao bucudo, ou caminho de Buda, e tem o mesmo significado que a expressão Kami Nagara No Michi (caminho que os deuses seguem).
Kami é a palavra mais importante para a compreensão do shinto, ela significa ao mesmo tempo: deus, alto, superior, imperador, velhos tempo, curso superior de um rio e velha residência imperial. Kami seria então a denominação de todo ser superior, no sentido espiritual. Kami também é a essência que penetra toda a natureza, o que está dentro de tudo e unifica as diferentes partes da natureza, criando uma unidade harmônica.
O shinto possui uma estrutura vertical onde o que está acima do nível humano é adorado e respeitado e o que está abaixo (vegetais, animais etc) deve ser cuidado. Os que estão no caminho (senda) devem proteger aqueles que estão hierarquicamente abaixo, assim como os kamis protegem os homens.
O mestre fundador do aikido, Morihei Uyeshiba estudava o shinto e explicou essas imagens assim: kami, na visão do Sensei, é composto por duas partes: o Ka que significa fogo e o Mi que significa água. O fogo é o símbolo do espírito e a água o da matéria, é óbvio que kami é a divina essência manifestada pela influência recíproca desses dois elementos. Ela está presente em tudo e a tudo dá vida, o Universo é vida e, em todas as coisas em que haja um fragmento da Vida Uma, a força ativa que inspira a evolução em todos os seres estará presente.

Segundo O´sensei, a palavra hito (homem) é composta de hi, a faísca, e to, o veículo, ou seja, o homem é o veículo da faísca. Comparando as palavras kami e hito vemos o paralelo entre ka e hi, o fogo e a faísca. Pode-se dizer então que o homem tem a parte divina dentro de si e por isso suas ações devem estar ajustadas a natureza divina. A tarefa do homem é inflamar essa faísca até que o fogo se acenda, convertendo hito no kami.

KAMI NAGARA NO MICHI

Houve um tempo em que deuses e homens habitavam a terra, os homens seguiam e aprendiam com os deuses. Contam as lendas que em uma certa época os deuses partiram e a humanidade ficou só. Porém, a filosofia diz, acertadamente, que os homens é que se afastaram dos deuses.

Mesmo com essa separação ainda existem lugares onde o céu e a terra, homens e deuses se encontram, o Tibet, por exemplo. Esses lugares são cercados de misticismo e quando se quer crescer espiritualmente são exatamente nesses lugares que podemos encontrar os ensinamentos necessários. Se nos desprendemos do caminho, devemos reencontrá-lo e trilhá-lo, os deuses podem nos ensinar o caminho, mas jamais caminha-lo por nós.

O Shinto

Esta tradição está no nome da antiga religião japonesa, o Shinto, que significa justamente caminho dos deuses. Uma expressão utilizada que indica a mesma coisa é Kami Nagara No Michi que significa o caminho que os deuses seguem. Essa expressão diz que o caminho de homens e deuses deve ser o mesmo, pois na terra dos deuses, mantemos uma relação de troca.
O pensamento ocidental não compreende a harmonia que este pensamento tem a gerar, não compreendemos que fazemos parte do todo, da natureza, devemos nos unir a ela e não tentar vencê-la.
O shinto contempla o mundo e dentro do mundo a si mesmo em unidade, ele é a senda (michi) pela qual se caminha portanto, não tem explicação lógica, é a busca do “ser” escondido atrás da forma.

Michi – a senda da vida

Para encontrarmos o caminho dos deuses necessitamos da purificação da alma.
Uma das histórias mais bonitas é a da purificação da alma humana (tama). Diz-se que a alma do homem é um espelho que escurece com a poeira dos vícios. A tarefa do homem é limpar este espelho da poeira depositada para poder refletir a luz do sol em todo seu esplendor – a deusa Amaterasu Omi-Kami, a rainha de todo o kami.
Omi-Kami é a deusa do Sol, filha de Izanagi (deus do céu) e Izanami (deusa da terra). Amaterasu, segundo a lenda, deu três tesouros ao primeiro imperador japonês: um espelho, jóias e uma espada.

Podemos compreender o valor dos tesouros se estudarmos seus significados. Tama significa ao mesmo tempo jóia preciosa perfeitamente esférica e alma, a jóia presenteada foi um colar de pérolas. Ou seja, a alma, a jóia, foi um presente da deusa e procede dela; o espelho lembra a natureza lunar da alma que reflete a luz se a poeira não obscurecer e, a espada, que pela tradição samurai é limpa antes do samurai aceitar um desafio no ritual chamado chiburi, que demonstra estar purificado, preparado para morrer caso isso aconteça. O samurai identifica-se com sua própria espada, limpa-la significa purificar a si mesmo.

Podemos concluir que o ensinamento básico do shinto é: purifica tua alma para poder ouvir a tua voz interior que te conduz pela senda (michi). Se não ouvirdes a voz é porque deixastes a poeira se acumular no espelho e, já não pode mais ver tua verdadeira face. Mas sempre há a possibilidade de voltar à senda e estar em harmonia com as leis divinas. Se um dia homens e kamis estiveram juntos, cabe a nós encontrarmos novamente este caminho, mas só o conseguiremos respeitando a vida na terra.

O michi só poderá ser encontrado quando estivermos em harmonia com a vida e o ideal, * “se sigo o caminho sagrado do fundo do meu coração os deuses me abraçarão mesmo que não me dirija a eles com alguma oração”.

(*citação de Sugavara Michidzane)

Fontes: Livraga, Jorge A: Manual de Primer Curso, Nueva Acrópolis.
Saotomé, Mitsugi: Aikido and the Harmony of Nature, Shambala Publications, Inc., Boston, 1986.


Tradução: Cecilia Alexandre Cid.